Pesquisar este blog

Carregando...

sábado, 24 de setembro de 2011

PAI DENUNCIA CASO DE BULLYING NO ALCINA FEIJÃO


"Pai, não quero mais viver." A frase suicida saiu da boca de um menino de 11 anos, estudante da Escola Municipal Professora Alcina Dantas Feijão, em 2008, e deflagrou uma investigação por bullying na Corregedoria Geral de São Caetano do Sul, no ABC. Na quinta-feira, o mesmo colégio foi palco da morte do estudante David Mota, de 10 anos, que se matou com um tiro na cabeça depois de atirar contra a professora Rosileide Queiros de Oliveira, que não corre risco de morte.


A família percebeu o sofrimento de K.C.S. no fim de 2008. Segundo o pai Sérgio Aciniro Sotana, 39, o menino chegava em casa sempre chorando. Dizia aos pais que a vida não tinha mais sentido e não queria voltar para a escola. O pai perguntava as razões, mas o menino não explicava. Diante do silêncio do filho, Sotana procurou o colégio. Nas reuniões, a coordenação pedagógica e as professoras diziam que o comportamento do filho era normal, e que não havia motivo para se preocupar.



O sinal mais claro da angústia de K. veio no final de novembro de 2008, quando o menino se jogou da laje da casa onde mora com a família, em Nova Gerty, em São Caetano do Sul. Caiu no primeiro parapeito e foi socorrido por um vizinho, sem ferimentos graves. Na mesma semana, K. tentou se jogar outra vez, mas foi contido pelo pai. "Disse ao meu filho que a vida dele era muito importante e eu moveria o mundo para poder ajudá-lo", lembra Sotana, emocionado. 



Após a dupla tentativa de suicídio, o garoto começou tratamento psicológico, que não surtiu efeito. Foi encaminhado a um psiquiatra e, após dois meses, revelou à médica o motivo da tristeza. Alegou sofrer agressões físicas e psicológicas dos demais estudantes. Era chamado de "mulherzinha, viado e bicha-louca" por usar brinco e cabelo comprido. Colegas chegaram a asfixiá-lo pelo pescoço e empurrá-lo de uma escada.



Assim que soube o que acontecia, o pai procurou a escola mais de 10 vezes para resolver a situação. Apenas na Secretaria de Educação, protocolou seis denúncias contra o bullying.



"Até hoje, quase dois anos depois, meu filho continua sendo alvo de xingamentos diários. O bullying não mudou, quem mudou foi meu filho, que aprendeu a lidar melhor com a situação, após todo este tempo de tratamento psiquiátrico." Sotana acredita que muitas outras crianças passem pelo mesmo, sem que os pais saibam. "Elas sofrem caladas, sem coragem de contar aos pais." E, após o sepultamento desta , desabafou: "Quando vi o Davi no caixão, tive certeza de que ele poderia ser o meu filho".


Foto: Daniel Tossato/Ag. BOM DIA
Mais de 200 pessoas acompanharam o sepultamento do menino



Corregedoria apurou denúncia de maus-tratos

Investigação foi suspensa após recomendação de ciclos de debates entre alunos, pais e professores



Entre fevereiro e julho de 2009, a Corregedoria Geral de São Caetano do Sul abriu uma apuração preliminar para investigar a conduta da escola no episódio de bullying denunciado pelo pai do menino K.C.S. O Ministério Público e o Conselho Tutelar acompanharam o caso. Ao término do processo, o corregedor geral,  Mauro Ruffo, exigiu providência junto à direção da escola para a realização de um "círculo restaurativo", o que significa envolver alunos, pais, educadores e psicólogos para "atenuar" o problema. Diante da decisão, a apuração foi suspensa.



Procurada, a diretora Márcia Gallo não quis se manifestar. Desde 2009 as escolas municipais de São Caetano possuem um programa de esclarecimento sobre o bullying. A Prefeitura de São Caetano do Sul informou, pela assessoria de imprensa, que todos os esclarecimentos foram prestados oficialmente ao Ministério Público. O delegado Francisco José Alves Cardoso, da delegacia central da cidade, investiga se a morte de Davi Mota tem alguma relação com o bullying dentro da escola.



Entrevista 

D._ Último colega a ver Davi com vida



'Brincamos de pega-pega no intervalo'



DIÁRIO_ Você conhecia o Davi há muito tempo?

D_ Conheço há dois anos, sempre brincamos juntos, tínhamos  amigos em comum. O Davi sentava na penúltima carteira e ninguém zoava com ele.



Você esteve com ele no dia dos tiros?

Sim. Brincamos de pega-pega no intervalo e voltamos para a última aula. O Davi foi ao banheiro e ninguém viu quando ele atirou. 



O que você fez depois disto?

Saí da sala e, no corredor, encontrei o Davi, com a arma na mão. Perguntei: "e aí, Davi?". Ele respondeu "e aí" e deu um tiro na cabeça. Estava na escada. Vi quando ele caiu.



Pai deveria ter nos avisado do sumiço da arma, diz educadora.

O desempenho escolar de Davi Mota, sepultado nesta sexta no Cemitério das Lágrimas em um caixão branco coberto com a bandeira do Santos, foi classificado como regular pela diretora Márcia Gallo e pela coordenadora-pedagógica Meire Bernadete Cunha. O menino de 10 anos, que nunca tirou nota vermelha, baleou a professora com a arma do pai, o guarda municipal Nilton Evangelista Nogueira, e se matou depois.



Meire questionou o fato de o pai ter ido até a escola antes da tragédia, à procura de uma arma, sem avisar os professores. "Se ele tivesse nos alertado, nós teríamos condições de revistar a mochila do Davi e esta tragédia talvez fosse evitada."

A delegada Lucy Fernandes disse que Nogueira pode responder por negligência, mas não está certa se vai indiciá-lo. À polícia, o pai afirmou que as crianças não sabiam onde ele guardava a arma. As testemunhas primordiais são o irmão de Davi, de 14 anos, e a professora que está na UTI.



Baleada chora e pede para família rezar pelo aluno.

A professora Rosileide Queiros de Oliveira, baleada pelo menino de dez anos quando escrevia na lousa, chorou ao saber da morte de Davi e pediu aos parentes e amigos que rezem por ele. "Ela jamais imaginou que o aluno fizesse isso. Acho até que nem ele sabia o que fazia porque era só uma criança. Não houve premeditação", diz o namorado da vítima, Luiz Eduardo Hayakawa.



Na noite de quinta-feira ele chegou a dizer que a namorada já havia reclamado de Davi à diretoria por ele ser muito bagunceiro e ter problemas psicológicos, mas nesta sexta recuou e disse ter se confundido. 



"Ela comentava comigo que na sala havia alunos que não deveriam estar lá porque tinham comportamentos diferente dos outros", explica o namorado.



Rosileide está internada no Hospital das Clínicas, onde se recupera da cirurgia  para a extração da bala. O projétil se alojou  na bacia, mas não atingiu nenhum órgão.  Segundo Luiz Eduardo, a professora comentou com ele que chegou a temer uma repetição da tragédia de Realengo, no Rio, ocorrida em abril deste ano, quando 12 crianças foram mortas por um ex-aluno. "Ela estava de costas e não viu o aluno entrar na classe", conta. Luiz afirma que o pânico aumentou quando Roseleide ouviu o segundo tiro. "Ela gritou para os alunos trancarem a porta da sala e chamar a diretora." A professora trabalha há seis anos na escola e nunca havia sofrido nenhum tipo de violência, segundo o namorado.



Criança escondeu a arma no banheiro.

A Polícia Civil de São Caetano do Sul acredita que Davi Mota escondeu a arma no banheiro. Imagens do circuito interno da escola mostram a movimentação do garoto após ele ter atirado. Na noite desta sexta, funcionários da escola foram ouvidos.  Ana Paula Lima, professora de matemática da escola, confirmou que uma de  suas alunas ouviu Davi falando que mataria a professora na quinta-feira e se mataria depois por medo do que o pai poderia fazer com ele. 




THAIS NUNES

DIÁRIO SP


Nenhum comentário:

Postar um comentário